Descubra-me

Descubra-me
Descubra-me de tuas mentiras. Despeça-me de teus desejos. Arranque-me de tuas lembranças. Tirai tuas máscaras. Pois agora quero ficar livre, livre de você.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Trechinho especial do livro > No jardim uma rosa negra

Na mesa uma humilde taça aguarda ser tocada por lábios ansiosos. Ao lado,
mãos frias tocavam um piano velho. As notas percorriam a sala que em instantes era inundada com sua suavidade e beleza.
O mundo parecia somente à plenitude dos toques nas teclas manchadas de poeira.
 Seus olhos estavam fechados, ela sentia a música saindo de seus dedos, era como se seu etérico estivesse sendo puxado para fora e encantando a todos os presentes.
Com seus longos dedos, esticou a mão para beber o líquido da taça.
Seus lábios pálidos se tornaram vermelhos e sua face ruborizou enquanto engolia lentamente, ela apreciava o sabor adocicado do vinho em seus menores detalhes, enquanto outros nobres acompanhavam sua esplendida apresentação.
Ela podia ouvir a todos e em sua boca algumas vezes se formava um leve sorriso, algo tão doce e tentador que nem mesmo os anjos recusariam um beijo daqueles lábios.
Ela parou...
Por um segundo um silêncio assombroso, a ausência da música era inquietante, era como se um enorme penhasco abrisse no peito de cada um.
A moça se levantou um pouco, pousou a taça ao seu lado e esticou os dedos até eles estalarem. Um ar de alivio em seu rosto.
Novamente, ajeitou seu vestido e continuou o espetáculo, hipnotizando novamente, construindo uma ponte invisível sobre o abismo. 
Até os criados pararam seus afazeres, os bastardos trancados nos seus quartos colocavam um copo no chão de madeira para ouvi--lá.

Sua beleza era sublime, não havia em nenhum canto da Europa moça mais bela, alguns diziam ser a própria Afrodite, filha do céu com o mar. Por onde ela caminhava deixava um pouco de sua beleza, que se ressaltava ainda mais no meio das flores.

Ela encantava com os olhos e selava as almas com sua música, conseguia deixar uma plateia em perfeita harmonia quando tocava.
Seu longo e bufante vestido branco, desenhava seu corpo. Um espartilho tão apertado que dava ao seu quadril um volume perfeito, seus seios também se beneficiavam do poderoso espartilho, era de deixar qualquer um em suas mãos.
Seus cabelos cacheados e vermelhos deixavam sua pele ainda mais branca e isso despertou o interesse de muitos, entre eles alguém que ela jamais esqueceria!
As notas agora graves faziam todos da sala se arrepiarem, era uma mistura de emoção e entusiasmo e suas almas eram lavadas pela música. Ela os olhou diretamente, fitou cada um do grande salão, sorriu levemente ao ver que todos estavam rendidos à sua música e beleza.
Ela havia ganho o mundo, tudo isso era poder, poder de fazer os outros ouvirem sua voz silenciosamente. Ela queria gritar, queria mostrar seu domínio e como isso mudaria tudo a sua volta.
A música fazia isso por ela, acalmava corações feridos, alegrava os enfermos e às vezes fazia pessoas se apaixonarem, e esse era um sentimento que ela jamais havia experimentado.
Por um segundo seus olhos encontraram alguém que supria suas necessidades, ela mediu a largura dos ombros, a cor da raiz do cabelo e estava ficando interessada em descobrir mais do belo rapaz. Seus olhos se cruzaram e um sentimento estranho surgi-o no ar, fazendo-o levantar, sua sombra se deslocou vagarosamente, o rapaz tinha os cabelos tão louros que a luz das velas, pareciam opacos e brancos, estavam presos em um rabo de cavalo q se estendia até a altura dos ombros.
Ele vestia uma capa preta, bordada em prata, uma visão de total encanto, ele pegou uma de suas mãos e beijou, sentando ao seu lado, ele fitava seus enormes olhos, rasgando sua alma e enfurecendo-a.

Ela o desafiava com o olhar, deixando transparecer o desprezo e interesse que estavam explícitos.
Os dois começaram a tocar com graça e paixão, ele se entregava a música, poderia competir com ela, o belo rapaz de olhos azuis penetrantes sentia a excitação fluir em seu sangue, o fazendo ficar quente.  
A pianista, incrivelmente maravilhada se deixou levar por aquele sorriso que desmoronou sua muralha em pedaços, seus dedos às vezes se encontravam e as faíscas eram evidentes, mesmo estando divididos pelas notas, sentiam-se extremamente unidos. Os convidados aplaudiam em pé, a nobreza dava urros leves que alegria, as empregadas choravam imaginando seus maridos que nunca voltariam das guerras, ou das doenças do grande mundo.

Seus dedos se encontram e se uniram involuntariamente. Ela sentiu seu corpo estremecer e por um minuto, ela teve a sensação de ter encontrado tudo o que precisava; os dois sorriram, seus olhos se uniam, ela olhava para ele gravando todos os detalhes de sua face, sua boca carnuda e desenhada, levemente rosada em um sorriso digno dos Deuses, seu nariz fino que combinava os traços de seu rosto se encaixava nas maças de seu rosto, as sobrancelhas eram bem feitas, o queixo marcado, másculo a excitava ainda mais.
Ela queria beijá-lo, ele queria beijá-la também, suas cabeças se inclinavam em sincronia até que as cinzas começaram a cair no rosto da jovem, fazendo seu pó claríssimo borrar, ela não podia enxergar direito, em um instante formou-se uma negra fumaça, era tão densa que poderia ser cortada com uma faca, buscou encontrar o rapaz, mas seus olhos embaçados não enxergavam nada, tentou forçar a visão, mas naquele momento um fogo vivo queimava tudo, ela sentia suas pernas arderem, seu vestido estava preso em algum luar do piano e suas lágrimas caiam em cascatas.
 Ela conseguiu avistar o belo rapaz de longe, olhando para ela com tristeza, parecia chorar também, os soluços e os gritos eram estridentes, tudo estava em chamas, todos da sala queimavam feito papel embebido em álcool, os berros quebravam o barulho do estalar do fogo.

Com os braços estendidos, pedindo ajuda, ela continuou sentindo o fogo queimar... queimar...  Queimar...


Arrastando para longe a alma de uma jovem e bela mulher cuja beleza eterna jamais fora esquecida!

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