Pude ver minhas mãos
tentando se segurar em algo, em cima de mim a imensidão da noite e uma lua
sangrenta que chorava comigo, algum lugar para me apoiar, algum lugar para me
esconder, eu sabia que poderia fugir se tivesse um lugar para a lua girar meus
passos.
--NÃO FAÇA NADA
COMIGO, EU LHE IMPLORO, NÃO POSSUO NADA, AS TERRAS DE MEU PAI SÓ SERÃO MINHAS
APÓS MEU CASAMENTO! PELO AMOR DE DEUS ME SOLTE! ME SOLTE, SOCORRO! ME SOLTE!
Meus pés se debatiam,
mas não conseguia me livrar do agressor, o cheiro de terra entrava em meu
nariz, estava claro que meu fim se aproximava, minha espinha estava gelada, meu
coração estava batendo como nunca tinha batido antes, a noite estava fria!
...
Eu podia sentir
cada detalhe, cada respiração era tão minha que me deixei ser influenciada por
aquela sensação medonha!
...
Em minha garganta a
angustia de não ser ouvida e o desespero de ser mutilada me consumia! Um
rugido, algo que estava mais próximo, mas não tão rápido quanto o ser que me
carregava, sentia meu rosto passar por galhos e por pedras. Estava de bruços,
sendo arrastada, minha roupa era deslacrada por raízes e meus seios estavam
sendo cortados por pedras.
Cada dor se
tornava mais e mais minha!
Parei, senti suas
mãos soltarem meus pés com brutalidade, tentei levantar e correr, mas fui pega
e jogada no chão novamente. Onde estava? Olhei ao meu redor e só o escuro me
fazia companhia.
Em minha cabeça senti
algo escorrer, logo, o cheiro de sangue tomou conta do ambiente, a adrenalina e
o medo deviam chamar a atenção dos animais, os predadores da noite.
Meu espartilho
estava me deixando ainda mais aflita, estava apertado, mal dava para respirar,
senti as mãos dele em meu corpo, passavam ásperas e grudentas, seu hálito podre
me enojou ainda mais, me debatia e mesmo assim sua boca tentava encontrar a
minha.
-- Me solta! Socorro!!
-- Cale-se, agora
você será minha quando eu quiser e na hora que eu quiser!
-- Socorro! Me
ajudem!! Pelo amor de Deus!
Minhas pernas foram
abertas, minha pantaloon estava sendo tirada ou rasgada, mal conseguia imaginar
o que iria acontecer. Na realidade eu sabia, mas não gostaria de pensar,
preferia a morte do que ser dele.
O cheiro dele
era de criadouro de porcos e suor. Nauseei e pedia misericórdia, pedia para que
me deixasse ir embora, que ninguém nunca saberia absolutamente nada. Ele
simplesmente ficou calado enquanto tentava tirar novamente minhas roubas
intimas.
-- Que cheiro
delicioso você tem!
-- Me deixe ir! Por
favor!
Gritava e
gritava.
Pude sentir seu órgão
relar em minha perna, algo quente e gosmento, vomitei. Me afastei tentando
buscar dentro de mim uma força que não tinha, tentava me livrar dele, chuta-lo.
Tentei chamar a lua, que sempre me deu folego, mais nem ela estava lá, ela não
seria álibi de um ato tão brutal, será que havia alguém, lá em cima intercedendo
por mim?
Algo passou como uma
flecha por mim, pensei em ser um morcego. Suas mãos nojentas tentavam calar-me
e ao mesmo tempo ele tentava roubar minha vida, novamente um sopro gelado e a
impressão de ser um bicho nos rondando. Por longos instantes, senti o rosnar e
a rugido próximo de meus ouvidos.
De repente um grito
assustador, e logo após um silêncio, não senti mais nada, nem o peso de seu
corpo gordo, nem o cheiro...
Será que eu havia
morrido?
Novamente tateei o chão, tentando encontrar algo para me apoiar. Olhava pra
cima, tentando achar uma pequena luz, algo que me iluminasse! Fui me
rastejando, gritando, até que me encostei em uma pedra. Entre as sombras e as
árvores, vi um vulto, parecia que alguém estava me olhando, corri, fiquei com
medo de ser o homem dos porcos, mais não senti seu cheiro horripilante,
novamente um vulto, senti cheiro de roupas limpas e um leve cheiro de cascas de
laranjeira.
-- Quem está ai? -- Pergunta idiota para quem quase foi estuprada, eu sei!
Vi novamente alguém me olhando de longe.
A lua foi refletida em longos cabelos loiros, não vi seu rosto, só
seus olhos vermelhos que gritam olá de longe.
Pisquei algumas vezes até a imagem ir sumindo lentamente. Um anjo da
guarda? Poderia ser algo pior que o gordo imundo que tentou me consumir? Não
sei, só sei que senti um alivio tremendo por saber que eu não estava sozinha,
fiquei aliviada em saber que ele, poderia ter me ajudado a me livrar do porco
imundo. Um sussurro bem baixinho, quase sumindo disse:
-- Está segura agora, minha amada, lhe guardarei para todo o sempre!
Vaguei por horas, acho que sempre em círculos. -- Floresta traiçoeira!
Nunca achava uma clareira ou o final daquele inferno.
Ainda estava assustada, pensando se o agressor fora embora assustado com os
barulhos ou se algo aconteceu, esperava profundamente que o pior tivesse chego
a ele. Aquele homem escondido, quem era? Será que ele verá tudo que tinha
acontecido comigo?
A aurora já estava se aproximando, aos poucos fui vendo a vasta imensidão
de arvores abrirem os braços. E eu ainda estava tentando sair daquele lugar.
Ouvi um latido; Logo depois outro e outro e mais outros. Ouvi meu pai, meus
irmãos me chamarem.
''ALIVIO!!! Foi o que senti naquele momento!''
--- Estou aqui! Papai! Papai! Aqui!! -- Gritei enquanto corria, segurando
meus seios e tentando tampar os buracos de minhas roupas.
--- Meu pequeno anjo, como você veio parar aqui? -- o abraço dele me fez
chorar, eu ainda não havia parado para chorar, chorei abraçada com ele, meus
irmãos vieram e me abraçaram também.
--- Não sei Papai, em um minuto estava em meu quarto e no outro aquele
criado, o que lida com os porcos estava tentando... Ahh Papai... foi horrível.
--- Vá com Matheo até em casa. Eu e seus irmãos já o encontramos, MORTO,
estripado em uma das árvores, parece que um animal o rasgou ao meio, só não sei
como ele foi parar preso entre os galhos mais altos. Mais fique tranquila, a
justiça divina foi feita. Ele pagou com a própria vida.
--- Mas havia algo na floresta, deve ter pego ele. Papai havia um homem na
floresta eu vi, seus olhos eram vermelhos feito sangue entre as arvores! ''



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