Descubra-me

Descubra-me
Descubra-me de tuas mentiras. Despeça-me de teus desejos. Arranque-me de tuas lembranças. Tirai tuas máscaras. Pois agora quero ficar livre, livre de você.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Pesadelos são feitos para serem sonhados e não vividos

      '' Árvores por todos os lados, sangue nas mãos, alguns gritos e um sentimento de profunda dor. Um rosto no escuro me assustou. Não sabia onde estava, mesmo sentindo que conhecia todo por onde eu pisava, novamente uma sensação de querer fugir mais não conseguia mover os pés (...)

Pude ver minhas mãos tentando se segurar em algo, em cima de mim a imensidão da noite e uma lua sangrenta que chorava comigo, algum lugar para me apoiar, algum lugar para me esconder, eu sabia que poderia fugir se tivesse um lugar para a lua girar meus passos.
 --NÃO FAÇA NADA COMIGO, EU LHE IMPLORO, NÃO POSSUO NADA, AS TERRAS DE MEU PAI SÓ SERÃO MINHAS APÓS MEU CASAMENTO! PELO AMOR DE DEUS ME SOLTE! ME SOLTE, SOCORRO! ME SOLTE!
Meus pés se debatiam, mas não conseguia me livrar do agressor, o cheiro de terra entrava em meu nariz, estava claro que meu fim se aproximava, minha espinha estava gelada, meu coração estava batendo como nunca tinha batido antes, a noite estava fria!
...
 Eu podia sentir cada detalhe, cada respiração era tão minha que me deixei ser influenciada por aquela sensação medonha!
...

Em minha garganta a angustia de não ser ouvida e o desespero de ser mutilada me consumia! Um rugido, algo que estava mais próximo, mas não tão rápido quanto o ser que me carregava, sentia meu rosto passar por galhos e por pedras. Estava de bruços, sendo arrastada, minha roupa era deslacrada por raízes e meus seios estavam sendo cortados por pedras.
 Cada dor se tornava mais e mais minha!
Parei, senti suas mãos soltarem meus pés com brutalidade, tentei levantar e correr, mas fui pega e jogada no chão novamente. Onde estava? Olhei ao meu redor e só o escuro me fazia companhia. 

Em minha cabeça senti algo escorrer, logo, o cheiro de sangue tomou conta do ambiente, a adrenalina e o medo deviam chamar a atenção dos animais, os predadores da noite.

 Meu espartilho estava me deixando ainda mais aflita, estava apertado, mal dava para respirar, senti as mãos dele em meu corpo, passavam ásperas e grudentas, seu hálito podre me enojou ainda mais, me debatia e mesmo assim sua boca tentava encontrar a minha.
-- Me solta! Socorro!!
-- Cale-se, agora você será minha quando eu quiser e na hora que eu quiser!
-- Socorro! Me ajudem!! Pelo amor de Deus!
Minhas pernas foram abertas, minha pantaloon estava sendo tirada ou rasgada, mal conseguia imaginar o que iria acontecer.  Na realidade eu sabia, mas não gostaria de pensar, preferia a morte do que ser dele.
  O cheiro dele era de criadouro de porcos e suor. Nauseei e pedia misericórdia, pedia para que me deixasse ir embora, que ninguém nunca saberia absolutamente nada. Ele simplesmente ficou calado enquanto tentava tirar novamente minhas roubas intimas.
-- Que cheiro delicioso você tem!
-- Me deixe ir! Por favor!
 Ele desajeitado tentando domar meu corpo, tentava me mexer. E novamente ouvi um barulho! Algo rosnando, ele se assustou e eu continuava a implorar...
 Gritava e gritava.
Pude sentir seu órgão relar em minha perna, algo quente e gosmento, vomitei. Me afastei tentando buscar dentro de mim uma força que não tinha, tentava me livrar dele, chuta-lo. Tentei chamar a lua, que sempre me deu folego, mais nem ela estava lá, ela não seria álibi de um ato tão brutal, será que havia alguém, lá em cima intercedendo por mim?
Algo passou como uma flecha por mim, pensei em ser um morcego. Suas mãos nojentas tentavam calar-me e ao mesmo tempo ele tentava roubar minha vida, novamente um sopro gelado e a impressão de ser um bicho nos rondando. Por longos instantes, senti o rosnar e a rugido próximo de meus ouvidos.
De repente um grito assustador, e logo após um silêncio, não senti mais nada, nem o peso de seu corpo gordo, nem o cheiro...

Será que eu havia morrido?
Novamente tateei o chão, tentando encontrar algo para me apoiar. Olhava pra cima, tentando achar uma pequena luz, algo que me iluminasse! Fui me rastejando, gritando, até que me encostei em uma pedra. Entre as sombras e as árvores, vi um vulto, parecia que alguém estava me olhando, corri, fiquei com medo de ser o homem dos porcos, mais não senti seu cheiro horripilante, novamente um vulto, senti cheiro de roupas limpas e um leve cheiro de cascas de laranjeira.
-- Quem está ai? -- Pergunta idiota para quem quase foi estuprada, eu sei!
Vi novamente alguém me olhando de longe.
 A lua foi refletida em longos cabelos loiros, não vi seu rosto, só seus olhos vermelhos que gritam olá de longe.
Pisquei algumas vezes até a imagem ir sumindo lentamente. Um anjo da guarda? Poderia ser algo pior que o gordo imundo que tentou me consumir? Não sei, só sei que senti um alivio tremendo por saber que eu não estava sozinha, fiquei aliviada em saber que ele, poderia ter me ajudado a me livrar do porco imundo. Um sussurro bem baixinho, quase sumindo disse:
-- Está segura agora, minha amada, lhe guardarei para todo o sempre!
Vaguei por horas, acho que sempre em círculos. -- Floresta traiçoeira! Nunca achava uma clareira ou o final daquele inferno.
Ainda estava assustada, pensando se o agressor fora embora assustado com os barulhos ou se algo aconteceu, esperava profundamente que o pior tivesse chego a ele. Aquele homem escondido, quem era? Será que ele verá tudo que tinha acontecido comigo?
A aurora já estava se aproximando, aos poucos fui vendo a vasta imensidão de arvores abrirem os braços. E eu ainda estava tentando sair daquele lugar.
Com o nascer do sol. Fui observando a floresta, fui achando o caminho certo. Fiquei aliviada, a sensação de estar segura com a luz me invadi-o. Meus sentidos estavam aflorados, qualquer barulho me assustava, será que conseguiria ir pra casa?
Ouvi um latido; Logo depois outro e outro e mais outros. Ouvi meu pai, meus irmãos me chamarem.
''ALIVIO!!! Foi o que senti naquele momento!'' 

--- Estou aqui! Papai! Papai! Aqui!! -- Gritei enquanto corria, segurando meus seios e tentando tampar os buracos de minhas roupas.
--- Meu pequeno anjo, como você veio parar aqui? -- o abraço dele me fez chorar, eu ainda não havia parado para chorar, chorei abraçada com ele, meus irmãos vieram e me abraçaram também.
--- Não sei Papai, em um minuto estava em meu quarto e no outro aquele criado, o que lida com os porcos estava tentando... Ahh Papai... foi horrível.
--- Vá com Matheo até em casa. Eu e seus irmãos já o encontramos, MORTO, estripado em uma das árvores, parece que um animal o rasgou ao meio, só não sei como ele foi parar preso entre os galhos mais altos. Mais fique tranquila, a justiça divina foi feita. Ele pagou com a própria vida.

--- Mas havia algo na floresta, deve ter pego ele. Papai havia um homem na floresta eu vi, seus olhos eram vermelhos feito sangue entre as arvores! ''

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